domingo, julho 30, 2006

saudades do futuro

Sonho no futuro,
Em sonhos não cumpridos
E já passados
Guardados em memorias
Que já nem se lembram de existirem.
Vejo projectada na sombra das arvores
A solidão vindoura de um corpo
Envelhecido e gasto pelo tempo
Pelas coisas nunca feitas, por fazer.
Sentado num banco, sozinho
Os pombos tem preocupações
Substimadas por nós
E as formigas atravessam o meu espaço
E organizam o seu futuro
Mecânicamente e sem sonhos
Que alguém algum dia possa saber...
Passam os anos
As imagens andam rápido nos meus olhos
Por dentro, como na tela de um filme
E tudo se torna baço,
Quando ao longe me vejo,
Sentado a sonhar num passado não vivido
Escrito, pensado... sempre sonhado.
E as doenças imaginárias
Acabam por corroer o meu corpo
E deixo-me morrer num mundo que afinal
Não mudou tanto, não mudou nada.

domingo, julho 23, 2006

performance...sem nada

Sem passado, presente ou futuro, duas pessoas experimentam a solidão de personagens que vivem presas em quartos alugados de um hotel sem lugar, espaço ou tempo, dirigido por uma porteira sem nome, idade ou qualquer vontade.

Pensamentos tardios, nocturnos, alimentam o tempo de pessoas que não falam e agem na eminência que algo aconteça.
A fatalidade inerente às histórias ficcionadas é estendida em momentos cinematográficos transpostos para uma performance ao vivo, em que o público é convidado a espreitar a vida de quem não conhece e em conjunto esperar descontraídamente que as palavras irrompam do barulho normal, quotidiano e meaningless....

segunda-feira, julho 10, 2006

sem palco



sempalco.blogspot.com

domingo, julho 09, 2006

broken elevator2


tinha acabado de ler Max Aub...
todos sabem decerto como se podem tornar incomodativos os sliêncios partilhados dentro de um elevador, esse espaço onde somos obrigados a interromper o espaço da outra pessoa e ainda que se encontre um mútuo desacordo em fazê-lo, estamos condicionados a aceitar essa fracção de tempo em que o espaço cedido normalmente ao ser humano é quebrado pela realidade de paredes tão próximas, e uma porta que se fecha até ao fim do destino...
essa condição em que duas pessoas (no mínimo) partilham o mesmo infimo espaço é algo perfeitamente natural e que no entanto se pode tornar num verdadeiro suplício. assim e por outras palavras podemos encontrar três fases distintas para estas viagens de curta duração e são tão demoradas quando estamos na presença de outros seres tão ou mais insatisfeitos do que nós. ainda assim partilham. em primeiro lugar encontra-se o silêncio e alguns suspiros de paciência fingida, que funcionam como véu para os pensamentos que existem por detrás dos olhos esguelhamente prescrutantes e que se denunciam quando olham o chão - "Coitado... que cara, e que olheiras, coitado. Está de rastos e que cansaço, tão cedo... Deve trabalhar imensas horas para ganhar uns míseros tostões... Faz tanto barulho quando chega tarde, de madrugada, podia dizer-lhe, ele sabe que sou o vizinho de baixo. Coitado!" - em segundo lugar temos uns suspiros mais densos e a respiração sonora sem sequer dar conta e decidimos ludibriar a situação alegando gestualmente a necessidade de ver as horas, no preciso momento em que nos apercebemos de que já o fizemos repetidamente enquanto gesto perfeitamente inconsciente de um corpo que sente o calor de outro tão perto e em silêncio. Finalmente e em terceiro lugar a tensão dá lugar ao alívio de ver os números aproximar-se do fim da viagem e um suspiro de alivio é mudo mas feliz no momento em que a porta se abre para se dar a evasão solitária de um dos corpos ou mesmo mútua, acompanhada claro está de sorrisos engelhados e conscientemente mal desenhados de um corpo que não consegue enganar o outro. Fim de viagem.
O elevador tinha parado completamente e eu estava ali com ele, as primeiras duas fases passaram de maneira quase abrupta, face à nova situação de partilha que nos era imposta, e a terceira fase deu lugar a um pânico em mim e nos olhos do outro que reflectiam exactamente o mesmo estado de espirito, dois corpos, dois seres humanos a partilhar esse espaço tão socialmente anti-social (paradoxo de pouca inteligência, mas perfeitamente plausível), os suspiros deram lugar aos sorrisos insatisfeitos e ambos sabiamos que eventualmente as palavras haviam de surgir de qualquer conjunto de lábios, nada mais para perscrutar e tentar disfarçadamente que o calor não me queimasse as faces e que o corpo pareça o mais confortável possível dentro do espaço que é reservado a um outro e não o meu. Ele limitava-se a dizer que tinhamos, mal saíssemos dali, falar com o responsável do condomínio para substituir os elevadores porque já há muito tempo que se previa o que tinha acontecido; os meus olhos fitavam o botão amarelo que poderia, se funcionasse, acusar a presença de pessoas que flutuavam suspensas por cabos dentro de um poço húmido e fundo... as palavras desenhavam a boca dele em diferentes formas e fazia-me sentir antipático - coisa que não sou - e eu tinha acabado de ler Max Aub, confortável sem ninguém perto ou na obrigação de ter que estar com alguém...
Matei-o por várias razões: porque não dizia nada de interessante, porque se tratava de um crime muito exemplar, porque o espaço não era suficiente... mas acima de tudo porque era a única coisa interessante que se pode fazer num elevador parado.
Matei-o porque me apeteceu, e de tudo o que ele disse não ouvi uma só palavra... se calhar nem disse nada.

terça-feira, julho 04, 2006

mariamente...

MARIA DE BUENOS AIRES...


Te Mueres...

Ahora que es tu hora,
Mujer que vives sola
Arrimada del mundo
Por la condición
Que te dejaran tus padres
La niña perdida
Se busca mientras
Hombres, como padres tuyos,
Tocan tu cuerpo
Te piden perdón y sigues
Buscando ese sitio donde
El amor existe
Pero nadie lo encuentra
Y los ojos manchados
De lágrimas que los labios comieron
Miran al espejo
La fuerza de las manos
De un gorrión
Te quita el vestido rojo
Y desnuda quedas
El cuello apretado,
El aire no llega más
Te mueres en esa mirada
La última de tu tiempo.

Maria de Buenos Aires,
Ahora que es tu hora,
Adiós.

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