quinta-feira, agosto 03, 2006

amada mia...

quem diria que numa noite em que vinha disposto a pensar na minha solidão, viria a encontrar a mulher dos meus sonhos. a mulher que é, toda ela, a descrição da minha solidão.
vestida de negro ela vive fechada nela própria e não sabe o meu nome, esse que eu já há muito esqueci. não me lembro se fechei o gás... pena não estarmos os três lá, naquele quarto escuro com a janela que dá para entrar o sol pela manhã por entre as cortinas. foi a clara que mas deu. pessoas, são tão frágéis esses seres que se sentem ameaçados por um simplório vendedor de rosas que sorrateiramente entra num café cheio de gente que finge não o ver, e ele podia ser livre, andar à vontade com o seu jardim ambulante de flores que não murcham até ao fim do dia quando ele se deita e adormece cansado do sol e da luz do dia.
quem me dera também dormir, poder sonhar em sonhos jamais sonhados por mim, adormecer no mesmo instante em que os meus pais morriam durante o sono. tenho tempo, ainda é cedo... que horas são?
podiamos estar, eu e ela, fechados naquela casa cheia de gás butano, iludindo as palavras que diriamos um ao outro e inconscientes caíriamos nos braços um do outro com o tempo todo a passar e morriamos os dois.
lembro-me duma história que uma vez li, num livro cheio de pó perdido nas prateleiras de casa dos meus avós - era criança, tão novo e já tão cehio de tristeza, tão sozinho - era sobre dois homens que se encontravam num banco de jardim e não se conheciam de lado nenhum... um deles falava alto os pensamentos e o outro ouvia estupefacto... é incrivel como a memória é traiçoeira, agora que decido pensar nessa história, não me lembro de quase nada, eles falavam acerca da morte - sempre me fascinou este tema, talvez por ter medo de morrer mas por ter a certeza de que não me acontecerá nada... - e falava um acerca de não se conhecerem e de term que morrer juntos, por qualquer casualidade, ali mesmo naquele banco de jardim e partilhariam essa coisa tão intima que é morrer e dariam as mãos, estranhas ao toque, desesperados e não se conhceriam nunca a não ser naquele momento tão estranho, tão inóspito. era assim que morreríamos, tu e eu, perfeitamente desconhecidos enebriados pela capacidade gasosa de nos fazer adormecer com as bocas coladas uma à outra, antes mesmo do coração parar de bater, sem ar, sem conseguir respirar.
e todos diriam que éramos um casal, e teriam pena de nós, dos dois em conjunto, e eu não seria mais alguém a morrer de solidão na velhice precoce num quarto nefasto de ar intragável. pobre coitado.
será possível apaixonar-se assim? de um momento para o outro?
o ser humano tem tantas opções que é natural, quase essencial, ficar baralhado, perdido, confuso, como eu... sozinho.

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