sexta-feira, maio 25, 2007

Um hamlet sem palavras

Aléx Rigola, o encenador catalão, o encenador prodígio (numa perspectiva bastante nacionalista, mas que não deixa de se confirmar) apresenta-se mais uma vez em Portugal e desta vez (para mim a 2ªvez) no Porto.
Já tinha tido a oportunidade de ver San't Xoana Dels Escorxadors no Rivoli por alturas em que este funcionava como Teatro Municipal, num evento efémero como tantos outros que já povoaram a Invicta em tempos de glória. Felizmente que ainda existe o FITEI, e que pela persistência dos seus organizadores, mal ou bem, se mantêm de pé. E as escolhas, são exactamente isso, escolhas, e por isso mesmo sujeitamo-nos; escolhemos, ou não, aderir á programação e no fim batemos palmas ou não.
Foi com uma vibrante energia que o público aplaudiu a peça de abertura do festival, e com razão. Num tempo em que a escassez teatral portuense se acentua cada vez mais, e que o público se vai lentamente tranformando em cadeiras vazias, "European House - um prólogo a Hamlet sem palavras" surge como uma lufada de ar fresco, um espectáculo em que somos remetidos (enquanto espectadores) para a nossa verdadeira condição de voyeurs e permancemos mergulhados no escuro e somos convidados a assistir à vida das pessoas na comodidade do seu lar, vemos o que não é suposto, e não se ouve nem se percebe o pouco que é dito, mas ficamos à escuta, o nosso olhar percorre a estrutura de três andares, com sete divisões, a Europa de Rigola, a vida de uma familia burguesa que vive uma história, nada mais, nada menos que a história de Hamlet moderno, um Hamlet contemporâneo, um Hamlet que existe com corpo no século XXI.
E de repente o teatro existe sem palavras, o teatro existe num palco á italiana que passa a ser uma tela de cinema, um ecrã de televisão, a janela do prédio em frente ao nosso. E os vizinhos, as pessoas que vivem do outro lado são a familia de Hamlet, e vivem a sua tragédia, a morte do "rei", e percebemos tudo isto, todos percebem.
Num tom completamente cinematográfico, Aléx Rigola, arrisca-se na criação de um teatro sem palavras, um teatro que vive da imagem e da necessidade do público querer saber o que se passa, de o público se questionar, de sentir estranheza como em Dogville se faz um cinema que parece teatro.
Aqui as personagens vivem a sua vida, os seus dramas, e Hamlet, este homem do nosso século questiona-se para além da morte do pai, vive com as preocupações de todos os seres humanos, numa casa dos nossos tempos, com uma mãe sofredora, com um tio usurpador, e um conjunto de personagens que visitam a casa nesta noite de luto. sim, porque é de noite. todos percebem isso.
E até o fantasma aparece, muito lentamente, iluminado de vermelho no leito nupcial...
Numa altura que o ser humano vive em contradição consigo e com o mundo, e é bombardeado de informação por todo o lado as palavras realmente parece que deixam de ter lugar, por vezes é bom mergulhar no silêncio, nem que seja para observar com precisão aquilo que os seres humanos - esse ser cheio de racionalidade - faz na intimidade dos seus espaços, dos seus nichos, nos momentos em que está no seu território. Como sofrem as pessoas. Como enfrentam as pessoas os problemas, a morte?
e como Rigola coloca em legenda:
Porque morrem as pessoas? Para que os vivos possam encontrar significado na sua vida.

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