sexta-feira, junho 01, 2007

um cristo...

"Stabat Mater".


Intitula-se assim o texto de Antonio Tarantino (edições cotovia), e inititula-se assim a peça dos Artistas Unidos, inicialmente levada a cena em Lisboa no Convento das Mónicas, e que subiu ontem ao palco no Teatro Nacional São João, no âmbito do Festival Internacional de Expressão Ibérica. Numa encenação de Jorge Silva Melo, a actriz Maria João Luís encarna a personagem de Maria uma mulher de baixa condição que enfrenta o desespero de uma mãe que tem kum filho que vai parar à cadeia. A história dos nossos dias desse dia sangrento que foi a crucificação de Jesus Cristo, aqui transportado para um bairro lisboeta e que pode muito bem ser qualquer bairro, qualquer guetto, em qualquer país do Mundo. Este mesmo mundo que não permite que a inteligência exista entre os pobres, os sem sorte, aqueles que o destino não bafejou com a sorte de tantos outros que comandam e governam o mundo.

Num plano mais intelectual temos um texto que aborda a problemática social existente entre as "gentes" de classe baixa, e os seus problemas, as suas angústias, os seus desesperos, os seus desabafos, os seus gritos de lamentação, o choro, a angústia, o desespero, é-nos tudo descrito num monólogo dramatúrgicamente (mais que) bem conseguido, conduzindo o público por uma história facilmente reconhecivel das passagens da biblia, e inteligentemente transformada para o dia-a-dia destas pessoas que conhecemos e vemos, mas que não nos atrevemos sequer a pensar na maneira como vivem, "o sacrifico que é uma mãe solteira criar um filho com uma cabeça assim...deste tamanho...".

A encenação de um dos nomes mais conceituados no mundo do Teatro, com a força de uma actriz que enfrenta um público inteiro sem nunca deixar cair o ritmo, sem nunca haver sequer a vontade de questionar o cenário (na minha opinião, perfeitamente dispensável), ou as luzes. Só ela, a personagem dela, Maria, que sobe ao palco e nos mostra a paixão de uma mãe pelo seu filho, os problemas que teve de enfrentar para o criar sozinha - com todo o panorama já tão conhecido português relativamente às pensões de alimentação, ajudas de custo, e toda a burocracia inerente e mais o desprezo a que são submetidos todos esses que recorrem ao serviço público português para tentarem melhorar as suas vidas (mas o mesmo se passa noutros países concerteza) - uma mulher do povo, vestida como tal, entre as cadeiras de uma igreja, uma mesquita, uma sinagoga, um convento, entre as paredes da casa de Deus (seja ele qual for) insurgindo-se contra aquele que a engravidou, e contra todos os que lhe recusam dar-lhe uma mão, uma ajuda, até mesmo nós o público.

Uma interpretação formidável da actriz que, durante noventa minutos, é o objecto do nosso olhar, da nossa análise. "E as coisas que ela diz...ai meu Deus!" Torna-se impossível não olhar, não escutar, não perscrutar esta mulher que despojada de tudo, se mostra a nós, qual santa se mostra aos crentes.

Somos todos um bando de mal-feitores. E ele foi preso. Torturado e morto. No passado, hoje e sempre.

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