sábado, setembro 29, 2007

photo shoot #2


cinema e música

Breakfast on Pluto . Foi em 2005 que saiu no cinema, mas foi só há duas semanas atrás que tive finalmente a oportunidade para ver este filme, que é como um saquinho com surpresas do ínicio ao fim. um conto de fadas de uma princesa 'kitten' que vive aprisionada no seu corpo, e o seu corpo é o seu mundo, e o seu mundo é fora de si, longe dos outros ou assim ela o crê e aventura-se (com uma banda sonora igualmente fantástica e divertida) à descoberta de um mundo que nós vêmos distorcidos através dos seus lindos olhos azuis (que pertencem a Cillian Murphy).
Um conto de coragem e aventura de um pessoa que procura até ás últimas consequências o seu lugar no mundo, o seu lugar no coração de si mesmo, alguém que procura encontrar "the phantom lady" e com ela todas as respostas que precisas para voltar a poder a amar-se novamente.
Assim como a personagem Cillian Murphy arrisca e transfigura-se para esta história adaptada ao cinema por Neil Jordan, uma história onde se procura encontrar respostas para o ser humano acima dos preconceitos e das questões de identidade sexual. Acima de tudo mostra-nos como todos precisamos de ser amados, e ainda continua a ser essa uma das principais questões da nossa sociedade.
A acompanhar uma banda sonora que abre sorrisos e deixa o público viajar pela história descontraídamente sem cair na depressão do auto-questionamento e afins psicológicos... isso fica para depois, depois do filme.
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Jay Jay Johanson . lançou neste ano de 2007 o cd "The Long Term Physical Effects Are Not Yet Known". confesso que gostei do título infinito mas acima de tudo da sonoridade do álbum que o próprio apresentou na Fnac em meados do 1º semestre do ano que corre... (não me lembro da data). A verdade é que o senhor tem uma presença estranha, ao mesmo tempo forte e é simpático e andrógeno e alguns temas da sua discografia são preenchidos de uma melancolia que a mim me agrada particularmente.
O tema "She doesn't live here anymore" é aquele que poderia ser um bom hino á saudade.

o sol não perdura

eis que o dia de sábado acordou cinzento. parece que o Inverno começa a ultrapassar o Outono. Acho que com o tempo a passar vou-me lembrar cada vez mais e mais de Londres...

só porque há pedaços do coração que soltamos

e deixamos partir

mas há sempre um vazio que fica

nesta melancolia dos dias frios e chuvosos.


sexta-feira, setembro 28, 2007

faz-me falta

o cinema...

o sol perdura

estamos no final de Setembro e o calor persiste, o sol brilha todas as manhãs e o calor dura durante as horas em que as luzes artificiais da cidade estão apagadas. as ruas movimentadas neste Outuno passeiam pessoas ainda queimadas pelo sol e as primeiras festividades estudantis saem à rua para gritarem hinos que ferem os ouvidos dos transeuntes mais susceptiveis.
Vivo em horas erradas, horas contrárias. fora de horas. a noite fria e gelada com o céu limpo e as estrelas guiam-me no caminho de volta para a minha cama onde exausto abandono o meu corpo para acordar no dia seguinte de olhos vermelhos e traços de maquilhagem e pedaços doridos lembram-me que o dia anterior aconteceu.
não acaba uma estação para dar lugar à outra que se segue e misturam-se confusas as duas e as folhas castanhas estranham ainda o calor e prendem-se o mais que podem aos galhos das árvores que são a sua casa. morrem mais lentamente do que costumam e aguardam o momento certo para se deixarem cair nesse precipicio que sabem ser o seu fim. (se as folhas pensassem)
e entretanto as saudades de quem não cá está (sim tu.) permancem e aumentam a cada dia e sorrio todas as vezes que te leio.
enfim (ultimamente adoro esta palavra) o sol perdura ainda não sei até quando, mas não anseio pela chuva, nem pelas tardes frias ou pelas noites que já começam a chegar cedo demais e antecipam a visão de algo que se aproxima. está tudo trocado e as montras vestem-se de cachecóis e casacos quentes que não se compram pois o corpo desconhece ainda essa vontade... não tarda nada chega o natal (como dizem os mais velhos, para quem o tempo passa sempre a pensar no que aí vem e no que ainda há para fazer).

continua a valer a pena...

portugal portugal

fiquei estupefacto, não que fosse pelo Santana Lopes, não porque ache que há coisas que tem mais importâncias do que outras. Não entendo muito de política confesso, preocupo-me com o país onde vivo. quero o melhor para ele, e quero tentar entender o que se passa... principalmente se atravessamos uma fase grave (como é perfeitamente vísivel por todos os portugueses e não só), a política interessa-me a partir do momento em que se dá importância ao povo e em que se procuram as melhores soluções para aumentar a sua qualidade de vida, que é a de todos. não me quero pronunciar sobre questões partidárias ou falar de política ou do governo, há coisas em que todas as partes estão erradas e Portugal é um desses casos. Também não se trata de não gostar (ou não perceber) de futebol e dos seus dirigentes e treinadores...

mas a verdade é uma, há alturas em que temos que ser chamados à atenção e roubei o vídeo daqui para mostrar isso mesmo.

terça-feira, setembro 25, 2007

related.: #11 undisclosed recipients

A noite acendeu-se.

E as luzes da cidade foram-se acendendo,
Uma a uma foram pintando o dia que
Lentamente se tornava noite.
Aconteceu tudo numa metamorfose
Fugaz, que deixava perceber a efemeridade do dia
E já no passado ficavam as horas em que
As plantas de folhas verdes, caídas, algumas faziam a fotossíntese!
Um conjunto de minutos eternos
Um lusco fusco que faz a transição para estes versos...
Os primeiros sinais da penumbra
Foram chegando ao espaços reconditos das casas,
E foi aí que as primeiras luzes artificias ganharam vida,
Percorrendo electrões que propagavam energia
E deixavam ver as formas sem sombra e sem dia.
Depois nas ruas, os passeios, por segundos mergulhados
Num negro azulado,
Viam-se de novos regados pela luz amarela, que brotava dos lampiões.
Quase ao mesmo tempo, os olhos das viaturas que corriam as estradas
Despejavam já uma luz sonora por entre as faixas de rodagem,
E iluminavam as traseiras de outros carros.
Lá de cima, onde o dia nunca o foi, nem será,
O azul, e as cores verdes e castanhas.
Transformaram-se em formigas cintilantes e estáticas...
Mais de perto, o horizonte desenhava-se com velas de electricidade
E numa competição com o manto das estrelas,
A Terra queria tornar-se bela, e brilhante.
Mas também essas luzes se apagariam, mais tarde,
Para dar espaço ao negro escuro da noite, com ou sem lua...
E ganhavam as estrelas...
Ganham sempre...
Pois ainda mais tarde, depois da negritude ser escura,
O dia brilhou de novo, e as estrelas continuam lá... sempre.

segunda-feira, setembro 24, 2007

si peter pan viniera...

Disco: La traición de Wendy
Letra: Ismael Serrano
Música: Ismael Serrano

Si Peter Pan viniera a buscarme una noche azul,
que me sorprenda a oscuras. Por favor, que no dé la luz,
no vaya a descubrir que suelo mentir
cuando juro ser aún ese niño.
Quién le va a contar que la gran ciudad
no dejó ninguno ninguno, ni uno vivo.

Estrellas fugaces, mi más breve instante, respiran el humo,
escuchan el mudo rumor que nace en sus vientres.
Fueron arrojados al acantilado
de la cruel favela,
huyen de las hienas, de escuadrones de la muerte.

Si Peter Pan viniera a buscarme una noche azul,
que se extingan los soles, ¿dónde diablos te esconderás tú?
Mowgly coserá botas en Ceilán, no escuchará rugir de noche a Bagheera.
Tom Sawyer reirá tras el humo del crack
si en esta redada logra salvar la vida.

Si Peter Pan viniera a buscarme una noche azul,
que nos sorprenda a oscuras, por favor apaga la luz.
Si quieres evitar que en la tempestad
le queme la fiebre de niños ancianos.
Quién le hará entender que al amanecer
cierran con grilletes sus ojos cansados.

Niños que perdí, a los que mentí,
gritan a lo lejos, arañan el hielo de la luz de la mañana.
Niños con espinas, con cuencas vacías,
que te lanzan piedras,
tiñen las sirenas de todas las ambulancias.

dias de folga

finalmente um dia de descanso, não propriamente mas um dia em que a cabeça não pesou tanto e o corpo agradece a calma e os olhos sorriem contentes por se saberem menos horas acordados.
o mundo está confuso ou será impressão minha?
às vezes não entendo como é que se perde tanto tempo em organizar tudo e toda a gente e quanto mais se organiza mais se quer organizar e no fim, como ninguém sabe nada de organização, está tudo um caos. é isso mesmo que o mundo é neste momento, um caos, parece que ninguém sabe que decisões há-de tomar, para que lado há-de ir, se segue ou volta para trás. e vive-se, ou tenta-se (viver), nesta confusão de organização em que nos metemos por não sabermos como é que queremos que as coisas fiquem na realidade.
cansa-me esta displicência que se tem em relação aos outros, e como tudo acontece como se não houvesse afectados, lesados, somos todos a causa de algo e as consequências ficam para mais tarde ou para as dores de cabeça de quem quiser.
no final de contas o que importa?
um dia acordas e dizem-te que tens um cancro, uma doença que mata. o que fazer? vives na angústia de querer aproveitar mais um ano de vida custe o que custar, mais um ano, e mais outro, e entretanto tenta-se curar a doença, e entras e sais de hospitais, matas-te (tu e quem te quer) a tentar encontrar um solução, uma saída da tua condição. passam-se os anos dentro e fora de hospitais, e ainda assim há um esforço para aquilo que se diz ser "uma vida normal" - dentro dos possíveis - e os anos passam (com sorte ou azar eles passam, ou podem passar) e depois um dia a tua mãe sai de casa, no dia a seguir ao teu aniversário, ficaste mais uma vez no hospital... falta-te o corpo, a respiração (mais tudo aquilo que deixaste ficar para trás nos anos que já passaram)... dirige-se para o hospital, a tua mãe, no dia depois e dizem-lhe de lá por telefone que faleceste. e no fim ficam cá os vivos. e o que importa? o que importam as coisas a que damos importância se acabamos ou por ficar ou por ir.

domingo, setembro 23, 2007

desilusões

há dias como este, domingo, sol... o outono parece estar longe ainda que a sua presença seja cada vez mais esperada (porque o ser humano tem dificuldades em lidar com as alterações que não lhe são perfeitamente explicada e expostas com bastante tempo de antecedência).
ontem a energia toda que trazia contida, explodiu à hora exacta em que começava o espectáculo em que estou a trabalhar, tudo parecia estar a correr o melhor possível, para a estreia, para os nervos todos que existiam, tudo parecia encaminhar-se nos trilhos... mais lento aqui, mais rápido aqui... é tudo uma questão de tempos, e de um maestro... é necessário como para os músicos haver um guia, alguém que mede todos os dias o tempo daquilo que nós fazemos... somos humanos e cá dentro (do corpo) há coisas que mudam todos os dias... todos os dias, existem mudanças que por vezes nem nos damos conta e só depois, passado uma semana é que reparamos, ou nem sequer nos apercebemos que (por exemplo) toda a nossa vida tivemos um sinal num certo sítio do corpo... por exemplo... mas desvio-me, tudo parecia estar nos eixos para resultar num longo, mas bom espectáculo! Tudo parecia indicar nessa direcção, nesse fim...
A verdade é que as falhas de comunicação entre pessoas, entre seres humanos ( alguns que ás vezes se esquecem que o são, ou que os outros também o são) é um problema actual e permanente na nossa sociedade, os ouvidos estão fechados e as bocas teimosas repetem uma e outra vez aquilo que o outro não quer ouvir... foi isto que aconteceu, uma grave falha de comunicação interrompeu o espectáculo de ontem a meia-hora do fim. Não interessa aqui dizer porquê, ou porque não...
Nunca pensei que tal coisa me pudesse acontecer, eis que lá estava eu... completamente disfarçado no meu papel... e eis que a noticia bomba caiu no público e em mim (e noutra actriz que estava comigo no preciso momento) fiquei lívido de vergonha perante os olhares de quarenta pessoas que ainda assim se interrogavam se aquilo seria verdade ou se era parte integrante do espectáculo.
Enfim é o que dá... confia-se nas pessoas, damos aquilo que melhor sabemos fazer, dispostos a enfrentar o cansaço, a enfrentar tudo aquilo que nós já sabemos que isto envolve (e não é pouco) e no final acontece que há egos demasiado grandes, falhas de comunicação graves e "uma pessoa dá-se dá-se, e nunca recebe um obrigado"

mas há estreias que marcam, e esta foi uma delas... a partir de hoje acho que vai valer a pena.

quinta-feira, setembro 20, 2007

está quase

está quase a estrear

domingo, setembro 16, 2007

há datas e horas para tudo


até já

sábado, setembro 15, 2007

fico sem tempo

com tanta indecisão, e tempo ocupado é dificil conseguir coordenar a calma necessária para encontrar um registo que, escrito, possa transmitir tudo aquilo que nos passa pela alma no preciso momento em que escrevemos. assim, escrevo de forma contínua para tentar, todo eu, escrever-me da melhor maneira possível utilizando todos os meios e ferramentas da gramática que foram inculcados desde criança no meu ãmago de pessoa literária que deseja ser oradora. como aliás todos o mundo procura fazer passar as suas ideias do papel para a voz falada, para que todos possam ouvir.
não sei porque escrevo mas a necessidade de voltar a ser um pouco como antes, em tentar que o tempo, o pouco tempo que existe, se prolongue num bater contínuo de teclas do meu computador, enquanto a aragem fresca da corrente de ar, de janelas abertyas, me atravessa o corpo e me ajuda a respirar, e o meu irmão sentado ao meu lado, absorvido, toca guitarra em notas e rapidez que não compreendo e, no sentido contrário ao da corrente de ar, me interrompe os ouvidos e quase se transforma numa partitura de movimentos para os meus dedos dançarem nervosos sobre o teclado preto, e escreverem aquilo que me atravessa, como se o corpo todo e os ajustes e a dor que sinto junto á zona pélvica, tudo isso, fosse expulso em palavras que se vão desenhando no ecrã luminoso em frente aos meus olhos...
e em tudo isto não páro de pensar na saudade, e de ficar irritado por não conseguir escrever correspondência para longe... como se uma letargia tivesse tomado conta do facto de eu escrever a caneta sobre papel... e a saudade, a saudade que aperta e não sei se choro, quando não choro... a saudade de ver as pessoas partir. ficar feliz pelos rumo estar a tomar caminho nas suas vidas... saudades que ficam, e trago-as comigo, partilhando-as às vezes com um nervosismo e obsessão que assustam o meu interior, mas que são fruto do carinho e da vontade de não tornar a perder aqueles de quem gosto. sei que não perco. espero não perder. mas a saudade existe e em tudo isto, os dedos continuam fervorosos trás e frente,e a hora aproxima-se e o tempo é novamente curto.

varicela artística

...sba

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sexta-feira, setembro 14, 2007

contos

O Coveiro

O cheiro a terra molhada é intenso, o cavado no chão profundo.
O homem, de galochas, assobia uma pequena melodia, dessas suaves e velhas, como ele.
O dia acordou à pouco. Os portões estão fechados. As flores e a relva guardam a noite passada em lágrimas frias de orvalho colado nos seus membros que despontam do caule.
Pousa a pá, e senta-se em pedra mármore a fumar um cigarro. Não tem pena dos mortos.
Homem estranho esse que fuma sentado nas campas dos defuntos, que toca sem decoro as lápides que outros choram. Fuma passivo, e o frio gélido da manhã roça-lhe as maças do rosto, sente-se bem o homem. Com a face já rosada e o cigarro a criar cinza, fica em silêncio a olhar o buraco imenso que fez. Sorri do seu trabalho, pensa no pároco que tanto agradecido lhe fica, nas pessoas que virão nesse dia, depois de ele abrir os portões, porque ele é o senhor do seu reino. É ele quem manda, neste cenotáfio de quem abandona o nosso mundo e se junta numa viagem que os de cá sofrem por não saber qual é. Abrirá os portões, sim, mas não agora. É um homem velho, este coveiro, mas feliz. Levanta-se assim que a beata do cigarro lhe queima já os dedos. É estranho este velho. A terra está húmida e os seus pés dentro das galochas enterram-se pelo chão. Já não tem de escavar mais, pelo menos hoje não, só há um funeral. Todos já viram o morto, pelo menos, e assim lhe contaram as beatas da igreja que lhe queimavam os ouvidos de histórias, que “era um velório a caixão fechado, pois o homem havia morto num acidente de viação, e ao que parece, ouvi dizer, tinha a cara irreconhecível, toda cortadinha que nem olhos se vislumbravam, assim ouvi dizer. Veio no jornal e tudo.”.
Não lê jornais este homem velho e estranho, e ainda assim sabe o obituário da sua aldeia desde que trabalha no cemitério. O sol já subiu mais alguns degraus, os ponteiros do relógio já andaram, e as gotas de orvalho já há muito que caíram mudas no chão alimentando as plantas da terra, e outras mudas caíram na mármore gelada das lápides alimentando a vontade dos vivos, amigos dos mortos. O velho já guardou o material de escavar na oficina, escondida atrás da capela que separa o mundo do cemitério. Está á porta da oficina, e agora com o barulho da aldeia que acorda tira outro cigarro do seu maço, acende-o e fuma-o ao de leve, enquanto vai verificar a sua última obra de arte, o buraco profundo cheio de ar que cai, e ao seu lado uma montanha de terra cheirosa. É de facto a sua última obra de arte, o seu coração decide, ali, de frente para o buraco, dar o seu último suspiro, e pára. Homem estranho este que cai assim dentro do seu próprio trabalho. Os portões abriram fora de horas, as beatas e o pároco chamaram o médico e juntos retiraram dali o corpo defunto do coveiro, que tão bem conheciam, alguns cozinhados para o almoço atrasaram, as beatas rezaram, o médico decidiu preparar o corpo para o entregar á agência funerária, os convidados para esse dia enterraram destroçados o pobre rapaz da cara desfeita no mesmo buraco onde de manhã havia morrido esse homem tão bom que era o coveiro, assim contariam as beatas dias mais tarde a quem não soubesse da história. Estranho este homem que não tem quem lhe abra um buraco para o eterno descanso. Homem estranho este que de velho e de coveiro tem tudo, que é não ter ninguém. estranho este mundo de mortos que assombram o pobre coveiro que tenta trabalhar em paz no seu cemitério e fumar o seu cigarro em paz sentado na pedra gelada de mármore da lápide, onde ainda hoje se pode ler em letras douradas : “Descansa em paz. António ‘O Coveiro’ 1911-1996”.

terça-feira, setembro 11, 2007

attachment (ao post anterior)

Imagem

Sangue. As roupas confundem-se nos corpos coladas.
Lá ao fundo dois seres espreitam
Fotografam, disparam luzes que se estendem na noite
E que iluminam este cenário sangrento.
Os corpos que jazem com as roupas ensanguentadas
São dois, um dos quais se percebe ser uma mulher,
As linhas do corpo desenham femininas e cabelos pastosos
Emolduram a cara da mulher.
Distorcido o outro corpo percebe-se ser um homem
São as roupas que falam na imagem, são de homem definitivamente.
A cara, o homem, destruída, destruído. Pedaços de vidro tomaram partido
E enterrando-se pela pele adentro do rosto masculino
Esculpiram esta obra de arte execrável, retrato desta noite.
As luzes azuis abandonaram o local horas depois,
Apenas resistem as manchas de sangue, esses charcos de mar vermelho.
Cobrem de areia agora os homens fluorescentes da madrugada,
Apagam a memória da estrada; o destino imprimiu a sua assinatura.
Viro a página, o jornal é de um dia qualquer.

Esqueço-me. Viro a página.

6anos ... 11 Setembro

decerto um evento marcante na nossa sociedade. algo que ninguém esperava que fosse possível, que o mundo pudesse novamente entrar em guerra.

fim de tarde

o verão esconde-se atrás do nevoeiro que banha a cidade no fim de tarde de um dia de Setembro. a frio infiltra-se pelos caminhos que o trazem do rio, e a cidade brilha num lusco fusco que apresenta a noite fresca que se aproxima á medida que o sol se põe ao longe no fundo do mar... onde o mundo acaba e o dia encontra a noite em tons de vermelho que se perdem na maresia calma que se avista ao longe. a cidade cinzenta ganha forma de um dia de inicio de inverno sem saber se os dias próximos trazem o calor do fim de verão ou um outono que lento vai cobrindo a cidade com o seu manto de folhas que morrem e se desprendem das árvores que orgulhosas se mantiveram vestidas todo o verão.
os últimos veraneantes misturam-se com os trabalhadores que voltam à cidade e num misto de calma e azáfama que se começa a instalar o nevoeiro adivinha o futuro dos dias que se avizinham... a cidade acorda lentamente de um sono profundo mergulhado num calor que arrasta as horas durante os meses anteriores ao deste em que cresce a ansiedade e inusitadamente o natal torna-se cada vez mais próximo.
vivemos assim, como os rios enfrentam o mar... enfrentamos o tempo na direcção contrária. põe-se o sol e um dia segue-se ao outro, avançamos.

segunda-feira, setembro 10, 2007

mais do mesmo

Angústia x infinito

Não aguento mais esta angústia,
Este aperto junto do umbigo que
Me consome, que não me deixa pensar
Que não me deixa sorrir, fruir do calor do sol
Que se espalha nas peles deitadas na areia
Escalda, corpos estendidos quentes de tanto
Brilho e uma brisa que surge para acalmar os mais
Indefesos.
Não aguento e a vontade de ser desaparece
Junto com a memória de algum dia bom,
Algum dia que tenha existido mas que se esquece
E a tristeza invade esse lugar, esse junto ao umbigo
Por dentro, e se assemelha à vontade de defecar
Os pensamentos mórbidos, as imagens do meu corpo
Estendido...
A perfeição da facilidade de ser atropelado
De morrer pela culpa de outros e tudo
Ser perfeito. Na morte. No nada.
Como um nó cego, mal feito, na corda errada
E se aperta contra o estômago, obrigando o coração
A encolher-se e subir em direcção ao cérebro que
Utiliza a capacidade de inteligência
Para morrer instantaneamente, não pensar.
Tão fácil seria se houvesse por vontade divina
A força de acabar com esta dor de maneira terminal
Como um cancro que se alastrasse rápido
Por todas as células do elemento: corpo.
E as drogas se tornassem ineficazes e tudo se conjugasse
No término de uma vida, e da dor que a acompanha,
Da infelicidade já desnutrida e verdadeira
Pela condição de animal acorrentado ao mundo
A minha condição moral de existência e a chave
Que me liberta dos grilhões perdida no universo
À espera de qualquer telescópio de almas a encontre
Subjugada à gravidade zero, e desenhando uma órbita
Confusa, difícil, estranha e no fundo sem sentido possível
De ser entendida, limitada pela imensidão espacial
E sem poder voar, ou saltar sequer, aninho-me no canto escuro
Acedo a todos os pedidos e a inutilidade toma conta de mim
E a metamorfose deste processo torna-me num ser vil,
Qual carraça que se aproveita da vida alheia e vive
Nesta circunstância de não ser, ou existir.
Lá fora o sol promove o cancro dos comuns mortais.
Aqui dentro as sombras promovem a minha degradação
O meu desespero alimentando-se junto ao meu umbigo,
Por dentro, perto do estômago.

sexta-feira, setembro 07, 2007

vida...assim de crua (momentos)

Mesquinhez

Vida mesquinha e inútil a nossa
Condicionada a extractos bancários que
Ocupam metade da metade mais forte
Do nosso cérebro.
Somos pequenos, minúsculos como a formiga
Que se esforça por sobreviver, trabalho árduo
E madrugador para que possamos sonhar
No dia seguinte com uma vida melhor
Uma vida que não chega, que demora,
Que se atrasa e não nos é nada.
Vivemos então num estado de sonolência
Permitindo que nos momentos de silêncio
Sonhemos sonhos que construímos com afinco
Desperdiçamos outra fracção da nossa vida real
Na mesquinhez destes pensamentos
Inventando uma realidade diferente
Que se esconde por detrás de promessas
E apostas descabidas que se perdem
E conhecem os sonhos de outros como nós
Que acordam sobre a manhã e não querem ver
A imagem do espelho, e no escuro das casas
Se vestem e arranjam para se juntar ao cortejo
De tantas outras formigas que carregam folhas
Verdes, folhas bem vivas, inanimadas
Sem sonhos, promessas, vontades
E não esperam por nada
Não querem nada.
Vida mesquinha e inútil esta nossa vida.

quarta-feira, setembro 05, 2007

the bell jar

escrito por sylvia plath conta a história de uma rapariga fora do comum que se vê perdida num mundo cheio de decisões e afazeres diários. no coração de nova iorque esther encontra-se perdida a seguir um rumo que lhe parece cada vez mais o menos adequado à sua condição de vida.
a escrita poética de plath transforma este romance num conjunto de eventos pintalgados de sonhos e devaneios pessoais da escritora que decide tornar-se ela própria o objecto da história e a sua obsessão pelo suicídio.
o mundo e as pessoas que nele vivem intemporais arrastam sempre os mais fracos conduzindo-os a um destino que mais tarde ou mais cedo todos acreditam como sendo aquilo a que estavam destinados.
um romance (quase) auto-biográfico desta escritora que, apesar de mascarada sob um pseudónimo que facilmente a manteve irrconhecivel perante a sociedade, encontrou dificuldades em sobreviver ao mundo dos vivos e que facilmente sucumbiu à poesia daquilo que todos os seres humanos temem (de alguma forma ou de outra) a morte. especialmente a morte auto-induzida.
em forma de testamento foi esta a maneira que sylvia plath encontrou para dizer ao mundo aquilo que a sua personalidade não a permitia proferir em palavras faladas na altura em que vivia. um encontro com o mais intimo de alguém que viveu encerrada em si mesma, na sua redoma de vidro – a sua bell jar - e que encontrou nas palavras escritas o conforto da solidão e do silêncio que a faziam sentir como o negativo de alguém que nunca conhecera verdadeiramente.

“...pois onde quer que me sentasse – no convés de um navio ou numa esplanada em Paris ou Banguecoque – estaria sentada sob a mesma câmpanula de cristal, abafada so o meu próprio ar, amargo ar.”

minimal.link

ver aqui relacionado com produções suplementares

still has the label on

Boa noite

Sem que me aperceba deitas-te magoada
De coração desfeito, e sem nada que o aqueça
Deste calor insuportável que se sente
Dentro desta caixa minúscula onde escrevo.
Ouves decerto os meus dedos enquanto caem
Sobre o teclado padronizado e que não conhece as palavras
Que cria e transforma sem sequer perceber que o faz.
Dormes numa caixa igual a esta, em quarto
Transformada e ficas deitada, o corpo imóvel
Acumula toda a energia naquilo que pensas,
Nas imagens que recordas do dia de hoje,
E no entanto, a tragicidade deste dia podia ter acontecido
Doutra maneira. Doutra qualquer onde a que foi
Se torna irrelevante, minúscula, diminuída...
Continuas deitada, e aos poucos o crepúsculo
Da noite cai sobre ti, os teus olhos, o corpo cede
E os sonhos escuros soltam-se e perdem-se
Esquecendo-se deles mesmo, e tu não te lembras. Nunca.
Suspiras...
Magoada e suspiras na esperança que alguém te ouça
Como quando em criança eu (tu) suspiravas
E a noite fazia-se longa, em choros reprimidos
Que acabariam por secar.
(Porque as lágrimas não se acumulam, secam.
E o calcário estraga as paredes metálicas da alma.)
As bocas existem demais, e as palavras são bens
Demasiado preciosos, e esbanjamos as letras
Cuspimos o ódio, a raiva, em literatura descabida e oral
Vocábulos que odeio, e que se atropelam junto aos lábios
E de tantas vezes engolidos
Vomito-os sem sentido
Qual embriaguez de sentimentos.
Não te deites assim... mas, que te direi?!
Não sei, e um dia já deve ter sido tarde demais,
Esquecemo-nos desse dia.
Eu não sou, nem serei ninguém,
O tempo passará por mim, e morrerei entre as bocas
Daqueles que gostam de quem tu não conheces.
Deitas-te assim, porque me desconheces,
O absoluto conhecimento do meu ser
Destruir-te-ia, esmagaria a tua vida, e morrerias no momento
Que o filho morresse nos teus lábios.

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