sexta-feira, setembro 14, 2007

contos

O Coveiro

O cheiro a terra molhada é intenso, o cavado no chão profundo.
O homem, de galochas, assobia uma pequena melodia, dessas suaves e velhas, como ele.
O dia acordou à pouco. Os portões estão fechados. As flores e a relva guardam a noite passada em lágrimas frias de orvalho colado nos seus membros que despontam do caule.
Pousa a pá, e senta-se em pedra mármore a fumar um cigarro. Não tem pena dos mortos.
Homem estranho esse que fuma sentado nas campas dos defuntos, que toca sem decoro as lápides que outros choram. Fuma passivo, e o frio gélido da manhã roça-lhe as maças do rosto, sente-se bem o homem. Com a face já rosada e o cigarro a criar cinza, fica em silêncio a olhar o buraco imenso que fez. Sorri do seu trabalho, pensa no pároco que tanto agradecido lhe fica, nas pessoas que virão nesse dia, depois de ele abrir os portões, porque ele é o senhor do seu reino. É ele quem manda, neste cenotáfio de quem abandona o nosso mundo e se junta numa viagem que os de cá sofrem por não saber qual é. Abrirá os portões, sim, mas não agora. É um homem velho, este coveiro, mas feliz. Levanta-se assim que a beata do cigarro lhe queima já os dedos. É estranho este velho. A terra está húmida e os seus pés dentro das galochas enterram-se pelo chão. Já não tem de escavar mais, pelo menos hoje não, só há um funeral. Todos já viram o morto, pelo menos, e assim lhe contaram as beatas da igreja que lhe queimavam os ouvidos de histórias, que “era um velório a caixão fechado, pois o homem havia morto num acidente de viação, e ao que parece, ouvi dizer, tinha a cara irreconhecível, toda cortadinha que nem olhos se vislumbravam, assim ouvi dizer. Veio no jornal e tudo.”.
Não lê jornais este homem velho e estranho, e ainda assim sabe o obituário da sua aldeia desde que trabalha no cemitério. O sol já subiu mais alguns degraus, os ponteiros do relógio já andaram, e as gotas de orvalho já há muito que caíram mudas no chão alimentando as plantas da terra, e outras mudas caíram na mármore gelada das lápides alimentando a vontade dos vivos, amigos dos mortos. O velho já guardou o material de escavar na oficina, escondida atrás da capela que separa o mundo do cemitério. Está á porta da oficina, e agora com o barulho da aldeia que acorda tira outro cigarro do seu maço, acende-o e fuma-o ao de leve, enquanto vai verificar a sua última obra de arte, o buraco profundo cheio de ar que cai, e ao seu lado uma montanha de terra cheirosa. É de facto a sua última obra de arte, o seu coração decide, ali, de frente para o buraco, dar o seu último suspiro, e pára. Homem estranho este que cai assim dentro do seu próprio trabalho. Os portões abriram fora de horas, as beatas e o pároco chamaram o médico e juntos retiraram dali o corpo defunto do coveiro, que tão bem conheciam, alguns cozinhados para o almoço atrasaram, as beatas rezaram, o médico decidiu preparar o corpo para o entregar á agência funerária, os convidados para esse dia enterraram destroçados o pobre rapaz da cara desfeita no mesmo buraco onde de manhã havia morrido esse homem tão bom que era o coveiro, assim contariam as beatas dias mais tarde a quem não soubesse da história. Estranho este homem que não tem quem lhe abra um buraco para o eterno descanso. Homem estranho este que de velho e de coveiro tem tudo, que é não ter ninguém. estranho este mundo de mortos que assombram o pobre coveiro que tenta trabalhar em paz no seu cemitério e fumar o seu cigarro em paz sentado na pedra gelada de mármore da lápide, onde ainda hoje se pode ler em letras douradas : “Descansa em paz. António ‘O Coveiro’ 1911-1996”.

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