quarta-feira, setembro 05, 2007

still has the label on

Boa noite

Sem que me aperceba deitas-te magoada
De coração desfeito, e sem nada que o aqueça
Deste calor insuportável que se sente
Dentro desta caixa minúscula onde escrevo.
Ouves decerto os meus dedos enquanto caem
Sobre o teclado padronizado e que não conhece as palavras
Que cria e transforma sem sequer perceber que o faz.
Dormes numa caixa igual a esta, em quarto
Transformada e ficas deitada, o corpo imóvel
Acumula toda a energia naquilo que pensas,
Nas imagens que recordas do dia de hoje,
E no entanto, a tragicidade deste dia podia ter acontecido
Doutra maneira. Doutra qualquer onde a que foi
Se torna irrelevante, minúscula, diminuída...
Continuas deitada, e aos poucos o crepúsculo
Da noite cai sobre ti, os teus olhos, o corpo cede
E os sonhos escuros soltam-se e perdem-se
Esquecendo-se deles mesmo, e tu não te lembras. Nunca.
Suspiras...
Magoada e suspiras na esperança que alguém te ouça
Como quando em criança eu (tu) suspiravas
E a noite fazia-se longa, em choros reprimidos
Que acabariam por secar.
(Porque as lágrimas não se acumulam, secam.
E o calcário estraga as paredes metálicas da alma.)
As bocas existem demais, e as palavras são bens
Demasiado preciosos, e esbanjamos as letras
Cuspimos o ódio, a raiva, em literatura descabida e oral
Vocábulos que odeio, e que se atropelam junto aos lábios
E de tantas vezes engolidos
Vomito-os sem sentido
Qual embriaguez de sentimentos.
Não te deites assim... mas, que te direi?!
Não sei, e um dia já deve ter sido tarde demais,
Esquecemo-nos desse dia.
Eu não sou, nem serei ninguém,
O tempo passará por mim, e morrerei entre as bocas
Daqueles que gostam de quem tu não conheces.
Deitas-te assim, porque me desconheces,
O absoluto conhecimento do meu ser
Destruir-te-ia, esmagaria a tua vida, e morrerias no momento
Que o filho morresse nos teus lábios.

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