sexta-feira, novembro 02, 2007

1ª parte do fim. 13pe1c

Uma noite

Subo por essa estrada. O táxi parte atrás de mim, já com outra vida
Outras história para ir contar. Deixo o calor do meu corpo, nos estofos deformados
O taxista ao longe, ouve o rádio numa estação que não conhece, mas era aquela
A mesma que sempre ouviu, a que já vinha com o taxi.
Subo por essa estrada, e os meus passos são lentos e sonoros. Como cavalo que galopa e os cascos batem no chão. Toc toc toc toc toc... um som que provém de tudo o que conheço e não deslumbro no meu cérebro as vogais e consoantes que traduzem o som que ouço.
Ainda não andei muito. Continuo a subir por essa estrada, todo eu numa lentidão distendida, o tempo sem qualquer noção de ser real, ou de sequer existir. Tudo atravessa o meu corpo e ladeia o meu olhar quase à velocidade da luz... e se tudo parasse agora, então seria um instantâneo daqueles urbanos, onde carros não são mais do que apenas traços vermelhos de faróis que iluminam a noite, e cores, cordões de cores que são o hominum urbanus, a qualidade da vida assim deste modo, sujo e solitário.
Olho para trás, ainda vejo muito bem definido o inicio da estrada, essa que subo. Um contraste entre mim, e o mundo fora de corpo, como se me dividisse em três e tudo fosse repartido em realidade para cada um. As pessoas que passam na rua, essas que contornam a minha existência aparente, suspendem-se como manequins que são por menos que uma fracção que segundo (mas que me permite vê-los numa qualidade de uma vida inteira para observar, ver, tocar, explorar, sentir...) nada mais do que estátuas, mortas mesmo antes de morrerem, e embalsamadas com os seus próprios químicos e mostram-se-me assim, ao meu lado.
E tu ontem disseste: “...todas as cidades devem ter uma prostituta, um chulo, e um cozinheiro...”, pois param, estacam, especam ao pé de mim as figuras da noite, que se vinham retorcidas deixam de o ser e mostram-se perfeitas à minha vista na sua perfeição.
Continuo a subir a rua. A estrada. Muito atrás de mim ficou o cruzamento, o local do taxi

Onde estará o taxi?! Um homem sozinho na noite conduz uma mulher, ela olha-o pelo retrovisor, e ele encontra o seu olhar quando procura sinais que venham da estrada, coisas que ele só possa ver se olhar para o retrovisor, e no entanto sem esperar nesta procura pela lei da estrada, encontra os olhos desta mulher. Não sabem quem são não se conhecem, ela desvia o olhar, e lentamente solta o cabelo, e o homem sentado no banco da frente esquece o mundo, e na verdade nada mais existe, o homem atira-lhe uma pergunta à qual a mulher responde com um sorriso a mulher tem a mão direita a tocar o seio esquerdo, e o homem segura o seu pénis, segura-o para que não sinta dor. Está tudo escondido. De repente a luz vermelha que ilumina a cara da mulher, transforma-a num ser verde, o homem, distrai-se e a mulher: “É aqui à direita, por favor!”

onde abandonei o que conhecia, e decidi subir esta estrada. Esta mesmo que subo agora e que não reconheço como aquela que comecei a subir há tempo que passou assim sem ponteiros de relógio que marcassem. Continuo...
O meu cérebro deixa a pouco e pouco de fazer sentido, à medida que entro cada vez mais, nesta estrada que deve seguir até ao infinito – e lembro-me de ti, e de mim, de nós os dois – porque não vejo mais além, para lá do que não consigo ver, não vejo ainda mais, e isso... não sei!
Lembro-me de ti, e de mim, de nós os dois, de como nos sentávamos naquele sofá todas as tardes, e compartíamos a emoção dos desenhos animados em frente à televisão sem cor, e era a da tua avó; e as nossas mãos dadas, lembras-te, as nossas mãos dadas naquela inocência de quem partilha beijos, os beijos mais puros, e a televisão iluminava-nos a vida, a presença de estarmos ali os dois, tu e eu. As mãos suadas de brincadeiras que envolviam os corpos, os beijos, as trocas de carícias, desprovidas de qualquer sentido de vergonha ou pudor, ou de mesmo qualquer pensamento, a não ser o impulso, de brincar, de ser criança porque o éramos e não podíamos ir contra isso, e tudo isso, essa vontade de amar alguém sem qualquer estigma, sem ter medo, vergonha, sem sequer pensar, porque tudo era tão puro, tão puro, tão simplesmente puro, que chegava a não fazer sentido, quando mais tarde falávamos e nos riamos disso, e nos sentávamos de novo no sofá a ver os filmes que gostavas, e riamos, nunca tão puro, nunca tão simplesmente puro. E lembro-me de ti, e de mim, assim, crianças, suados, sujos, o sol abrasador do campo que irrompia pelas janelas do quarto da casa da tua avó, fazia reflexo na televisão e víamos os desenhos animados assim colados ao ecrã... ( se calhar é por isso que usas óculos, mas eu não).

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