segunda-feira, novembro 26, 2007

para quem quiser ler...

o fim de "13poemas1coveiro e uma noite"

Sempre pensei que vida seria assim, tu e eu sentados naquele sofá, e tudo fosse simplesmente desprovido de sentido, ou assim tão simples. Que fossem aqueles desenhos animados, que mais tarde depois de tu e eu estarmos assim, na candidez da meninice, ganhavam cor...
Subo, subo ainda esta estrada, e penso em ti, no tudo que eu conheço, já subi muito, à pouco uma placa dizia, [INFINITO] e dizia para seguir em frente, para continuar a subir, mas não vejo por onde se suba mais, e é o nada. cheguei ao topo e outra placa diz o mesmo, agora desço, desço esta estrada que me guia até ao infinito, e quando aí chegar encontro as paredes de acabam esse infinito, e conheço o nada, e simplesmente o nada é o caminho desta estrada.... as pessoas, as imagens, os carros, parecem passar por mim, sem que me vejam, e as montras, as lojas ...

Caminho na noite, e falo para que as estrelas me ouçam, e se embrulhem com as minhas palavras, e tudo seja dito para que a noite ouça, e nesse escuro que as palavras ganhem forma, e seja um meteorito de palavras, cheio de sentido, tudo bem organizado, e a cauda de gelo, serão os sinais de pontuação desordenados. E digo estas palavras, para que o vento aqui, que bate na minha cara, esta brisa ainda que leve, mas gelada, que me gela os ossos, e os ossos de quem me conhece, esse vento, aquilo que chamo vento, leve as minhas palavras, o que o meu pensamento fala, sem saber dizer e ultrapasse as camadas terrestres, e chegue ao universo, e que as estrelas, e os sistemas solares se juntem numa amalgama de palavras e construam um poema de palavras, de letras com sinais de pontuação, e que cosmos se organize para criar a perfeição da palavra e aí, qual jogo de brincar, salte de buraco negro em buraco negro e que as estrelas sejam curiosas e vejam o que acontece (falo para que a noite me ouça, e leve consigo as palavras que não digo a ninguém, e quem as ouça, essa noite de estrelas e de lua, que me ouvem, e ouvem os meus passos nesta rua, sozinho, e as luzes, luzes citadinas, e urbanas, preenchem a vontade de estar sozinho, falo para que a noite que é plena me ouça no seu silêncio tão dela) e que sejam o infinito, e que as palavras que a noite apanhou da boca, dos lábios que enunciaram pensamentos, se libertem nos circuitos astronómicos, nessas estradas de pó de estrelas que constróem o universo povoado de edifícios intergalácticos, e sigam em frente e que por esse infinito encontrem as paredes que definem o fim, e ai a força das estrelas desconhecidas, seja uma só, e as palavras encontrem os poros por onde este universo respira, por essa parede e saiam, fazendo reverbar os instrumentos sonoros de quem ouve as noticias do espaço, e que esses seres, que o mundo alienígena, que essas formas de vida, que existem muito para além de todo o universo, ouçam a nossa tão primária forma de dizer amor, de falar amor, e de querer amor, e cessem de nos procurar, mas que ouçam as palavras cheias da magia das estrelas, e ouçam a perfeição dum amor tão arcaico, mas tão genuíno, tão solitário, tão nada e tão belo.

...as montras das lojas são como espaços que transparecem esse nada, e as lojas guardam pessoas que se movem incessantemente lá dentro, por detrás do vidro à prova de bala, e só vemos os vultos, de pessoas que são vazias, que são nadas, prontas para atenderem pedidos de nada, pedidos vazios sem sentido de nada, vazios do tudo.
E se tudo isto for o nada – continuo a descer a rua, desço rápido e por vezes tudo pára e eu desço muito lentamente, como uma contradição minha e do universo – a noite ouve as palavras que se desprendem do meu corpo, a esta noite acompanha-me, nesta estrada que desço, agora desço e olho para as estrelas, e por um momento acho que me perdi, mas seria impossível, a estrada é a direito e no nada não nos perdemos, porque só perdemos o tudo, e o nada (não faço sentido) esta noite, e como todas as outras tão magnificamente bela, tão magnificamente só
Chorei, hoje á tarde, chorei, (esta mulher que sai, abandona uma porta que fecha uma casa, espreito antes de ela a fechar não vejo nada) chorei não sei muito bem porquê, chorei por mim, chorei para dentro e para fora de mim e do meu coração eclodiu um outro, e um outro, e um outro, e tantos outros, como uma rosa que se desfaz em pétalas. Chorei, pela noite, pelas estrelas, pela beleza, pelas palavras, ( chorei talvez pelo saco que aquela mulher levava na mão ), chorei pelas pessoas, chorei pelo mundo, chorei pela memória de ti e de mim juntos em frente aquela televisão, chorei pela simplicidade das coisas, chorei pela vontade de ser, chorei pela vontade de não ser mais, chorei pela prostituta, chorei pelo chulo, chorei pelo cozinheiro, chorei pela saudade, chorei com vontade, chorei por me estar a desfazer, chorei pelo chão, chorei por esta estrada, chorei por ti e por mim, chorei pelo tudo e pelo nada, chorei talvez pelo olhar triste de aquele que passou por mim (mesmo agora)... chorei pelo nada mais que tudo.
Continuo a descer, e já andei muito e a estrada debaixo dos meus pés, deixou há bastante tempo (talvez... não sei) de ser a estrada que subia e que comecei a descer, há um misto de decadência e beleza na sua definição, encontro-me sobre ela, e ao mesmo tempo reflectido e afundado nela. Desço, olho para traz e a noite vai cobrindo o que vou deixando, talvez por que noite é sábia e não que veja, não quer que ouça os passos de um alguém que não é ninguém, e tudo resto é mudo, sem som, a vida deixa de ter vida e agora sou só eu e a noite, e lembro-me de mim, de ti, de, de mim, de nós. A estrada agora a pique, lembro-me do táxi. Ao fundo da rua, como se fosse o farol de uma mota ao longe, e flashs de luz cegam a noite e torna-se dia e vejo o horror (o mundo sem nada), de novo tudo ás escuras de novo. Continuo a descer e esse farol é cada vez mais forte, mais presente nesta estrada que me leva, que conduz os meus passos ao infinito, e agora que chego ao final, sinto-o mais perto, esqueço-me do caminho que fica para trás, e a velocidade não existe, a noite é o dia sem luz, as estrelas guardam o segredo das minhas palavras, a lua esconde-se só, muito só. e eu aqui aproximo-me do farol, dessa viatura (um carro com a lâmpada de um farol fundido, uma motorizada talvez uma bicicleta daquelas em que os avós andavam e se deslocavam com aquele farolim, tão típico, aceso) que atravessa o meu mundo, mas que não se aproxima, que viaja na noite escura, essa noite que me acompanha cheia de lua e estrelas que se misturam com aquilo que penso agora que falo, digo, escrevo na noite, em linhas que as estrelas constróem só para mim, para que todo o meu ser se exprima numa vontade só. eu assim. Aproximo-me do farol enquanto continuo, calmo, só, acompanhado de mim, nessa estrada que parece estar a chegar ao fim, porque não há mais nada, e o farol ilumina em contraluz duas silhuetas que ao longe parecem ser figuras de cartão preto recortadas por uma luz brilhante...desço, e ganham forma espessura, dimensão, assim como as palavras ganham forma fora de mim, e as estrelas as conduzem a formarem frases cheias de sentido e se perdem na noite que as transporta para um infinito que não se conhece e é desmedidamente enorme, um infinito que quase parece não ter fim. Os meus passos lentos, mas alarmam o mundo da minha presença, e toda esta noite esta solidão suspende a minha respiração, e caminho sem que respirar seja mais preciso, fundamental, e só os meus passos denunciam o meu ser na noite vazia, sem nada, sem vivalma, sem o choro que ouvi de mim pelas pessoas pelo mundo, sem vivalma, continuo nesta rampa de estrada que designa o fim sem mais principio (onde deixei o tazi, perdido também na noite, onde abandonei as pessoas que viviam as vidas calmas onde não há estrelas nem lua, nem brisa que as acompanhem), e são dois vultos, reparo nesse farol, que transmite juntamente e cheio de interferências de mensagens de seres que não conhecemos, que vivem a anos luz, naquele infinito que se perde nele próprio e que se prolonga nele mesmo sem sequer saber onde acaba ou onde começa, essa emissão a preto e branco de desenhos que se movem cheios de cor, e duas sombras que se tocam na simplicidade e na cumplicidade cheia de ternura dão duas mãos dadas numa tarde de verão, dois corpos infantis suados que de tão puros se tornam e são defeitos de todas as pessoas que foram vitimas das lágrimas. Essas duas sombras que estafadas, são nada mais que duas crianças que brilham, onde as faces brilham ao som da interferência da emissão de desenhos animados, desse farol que não é de nenhuma viatura nem em movimento nem parada e que ilumina com a sua radiação os corpos suados de brincadeiras, de escondidas, de jogos eternos cheios de riso e vontade. As duas sombras que somos tu e eu. E aproximo-me enquanto dou os últimos dois passos, na noite, nessa noite emitida pela luz da lua e das estrelas que se perdem nas palavras, e sou a memória de ti, e de ti e de mim, sentados, juntos. Crianças cansadas, suadas, mortas de brincar, de viverem na memória de alguém, de ti e de mim, e dessa viagem de táxi, e de olhos pousados em montras, em cafés por mexer, em colheres e serviços de prata. Não me aproximo mais, e vejo ali, o farol iluminado como que a guiar dois veleiros que fogem no mar, que dão luz a essas duas mãos que se agarram com unham cobertas de terra, de lama, de erva verde, de cheiros de uma tarde de verão, e nesta noite chego aqui ao fim da rua e lembro assim, de ti. De ti e de mim, de nós.
E o táxi que vagueia por outras ruas, sem destino ao som de uma música de jazz que toca por engano, num rádio que recebe as interferências de todos os outros táxis perdidos como ele na noite, e o homem sentado no lugar do condutor que fuma um cigarro que nunca mais acaba, um cigarro que se acende e logo perde a força nessa noite cheia de infinito, cheia de finalidade, cheia de estrelas e de lua, e de mensagens que chegam, que se ouvem perdidas e melancólicas com o som do rádio que toca uma música que muda de vez em quando, e que é infinita como o universo e que tenta improficuamente ser e ler as mensagens de uma forma de amor tão primária, e a voz que chega, que interrompe a fragilidade do acontecer, do cigarro, do carro parado, da música transmitida pelas estrelas e para que as outras estrelas e outras mais a ouçam, essa voz que gutural e radiofónica é daquela mulher sentada, sentada, sentada. Sentada na noite, e eu não avanço mais, e a mulher: sentada que já se esqueceu do meu recado apontado em folhas amarelas que se destacam de outras folhas amarelas e que se amarram aos dedos, às mãos, às paredes e que ali ficam a serem escondidas por outras mais, por recados de outras vozes, e de outras bocas, de outros lábios que como eu, assim, sobem e descem ruas e a noite mastiga o que fica para traz e alimenta as estrelas do universo, infinitamente. Essa mulher: sentada, numa cadeira que gira, e que transfigura as memória de mim e de ti, de ti, de nós. E é ela numa noite que suada vem, arranjada, vestida de perfume barato, escondida pelos olhos que se fecham e abrem nas lentes que aumentas e clarificam a noite. Essa noite que me engole a mim e a ti, e ao homem, e aos outros, e a ela que se senta ali, que mecanicamente repete aquilo que o seu cérebro entende que o ouvido ouviu, e que as folhas amarelas já esqueceram.
A mulher que pega numa revista que tira da mala do meio de tantas outras revistas e objectos minúsculos de caracter extremamente feminino, que tira a revista e lê desinteressadamente sem se preocupar com as vidas que percorrem as ruas fora da sua própria vida, mulher que se esquece assim sem mais nem porquê.

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