sexta-feira, fevereiro 15, 2008

"O Café" do Teatro Nacional SJ

até 24 de Fevereiro no Teatro Nacional São João (Porto)
mais info: www.tnsj.pt
Não, não vou falar acerca do espaço do teatro onde se pode em momentos de lazer antes ou depois dos espectáculos (ou até em intervalos) tomar um café essa preciosidade de alguns países mediterrânicos como o nosso e como não podia deixar de ser Itália. E é precisamente em Itália, mais especificamente em Veneza que se situa o espectáculo em cena no Teatro Nacional da Invicta.
Um texto de Carlo Goldoni aqui encenado por Giorgio Barberio Corsetti apresenta-se como uma mistura de várias influências que fazem sentido apenas para quem se viu envolvido em todo o processo de criação deste objecto artístico que é oferecido como alternativa cultural ao público portuense. A falta de imaginação e incongruência de um cenário “mil vezes revisitado” quer em memória, quer fisicamente como é o caso de outras visitas na mesma casa, por exemplo de “Um Hamlet Sem Palavras” ou de “Rinocerontes” (que esteve em cena no Rivoli em alturas de grande actividade cultural na cidade).
Para além disso e do dissabor que isso causa a partir do momento que a cortina de ferro no edifício se levanta pelas mãos do actor João Castro (Trapaça, empregado de Ridolfo) – aqui sem dúvida o melhor naquilo que faz e naquilo que propõe – a peça mergulha imensa vezes em vazios e falhas de ritmo abissais que existem devido a uma preguiça latente e uma má gestão dos recursos que são oferecidos a esta equipa e pela qual tantas outras (mais pequenas) na mesma cidade ansiavam por usufruir de uma pequena percentagem. O cenário transforma-se na peça fundamental num enredo e desenrolar de histórias sem fim, das quais extraímos rapidamente o sentido, voltando rapidamente a atenção para aquilo que o encenador deve ter achado que seria o fundamental nesta obra teatral.
E eis que surge a surpresa, já previamente anunciada, mas ainda assim a surpresa… Uns pequenos reflexos daquilo que parece ser água surgem projectados nas superfícies metalizadas do cenário e pequenas gotas emergem da borda que não deixa ver aquilo que está acontecer: o chão do Teatro Nacional é literalmente inundado de água, remetendo-nos (se fosse possível a todo o público ver) para uma Veneza intemporal e de histórias de jogo e maledicência, de disfarces e enganos, que vivem à mercê das correntes e das cheias e onde a sociedade se afunda progressivamente “na própria água que vai metendo”. A metáfora resultaria se fosse visível para todos e se servisse algum propósito maior do que apenas o fetiche (de quem quer que seja) descabido e não existisse apenas por motivos de show-off que foi, na minha opinião, aquilo que aconteceu.
A peça vai decorrendo numa sala semi-cheia a uma quarta-feira e o desconforto vai tomando conta do corpo e tenta-se, ao máximo, aproveitar aquilo que está publicitado como um das melhores peças de Teatro que o Nacional tem para oferecer.
Desta vez não se trata de “intelectualices” ou tentativas falhadas de conseguir atingir a perfeição, é a procura por um estilo onde seja possível reunir vários estilos que não se encontram em conjunto em nenhum sítio do mundo, onde não cabem momentos “Rocky Balboa” com “O Padrinho” à mistura procurando conciliar com um tom de comédia muito mal interpretado e conduzido a um mau gosto humorístico.
O problema não é dos actores, mas de uma encenação que focou demasiado as atenções para um despropósito orçamental e que não acrescenta nada ao desenrolar de uma obra do século XVIII e que está obviamente datada, não há uma adaptação mas uma colagem forçada de estilos e géneros.
Dos actores pouco tenho a dizer a não ser de João Castro e Ivo Alexandre que merecem ser reconhecidos pelo seu trabalho.
As expectativas eram demasiado altas, e o Teatro Nacional São João serviu um café um pouco deslavado e mal tirado.

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