terça-feira, abril 28, 2009

Myra&Ian Brady

IAN BRADY IV

Ela tornou-se completamente apática e andou de luto durante meses. Todos eram culpados pela morte do boneco. Ela própria uma nadadora exímia, não fora nessa tarde com ele para o lago. Duke, o cão da avó, tornou-se o novo favorito de Myra, até que um automóvel o atropelou. A avó lamentou o acontecido e comprou outro cão. Myra voltou a andar de luto. Primeiro quis entrar para um convento e tomar o hábito e o véu, mas depois acabou por optar pela touca do cabeleireiro. Umas vezes loira, outras vezes ruiva, ao sabor da moda ditada pelas revistas femininas, inacessível aos rapazes das redondezas, à espera daquele que havia de vir. Mas Ian Brady não reparou na rapariga de pernas altas e seios grandes. Mais concretamente: sujeitou-a meses a fio, ora à esperança ora à depressão. A um olhar encorajador seguiam-se semanas em que a ignorava por completo: meia-dúzia de palavras insignificantes, semanas de silêncio. Ignorava-a durante o intervalo do almoço e andava a meter alemão à força na cabeça. Lia Mein Kampf, literatura pornográfica, “O Beijo do Chicote” e livros policiais. Quando ele se constipou, Myra escreveu no seu diário: “Gostaria de cuidar dele.”


Excerto de “O Paraíso não está à Vista” de Rainer W. Fassbinder

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