sábado, maio 23, 2009

No poder existem dois pólos que não tem necessariamente que se atrair.

Oleanna de David Mamet.

"Os discursos devem ser tratados como práticas descontínuas, que se cruzam, que se justapõem por vezes, mas que também se ignoram ou se excluem. (...) Deve-se conceber o discurso como uma violência que fazemos às coisas, como uma prática que lhes impomos" **
Michel Foucault in A Ordem do Discurso (**retirado do programa da peça de teatro "Oleanna" apresentada no Passos Manuel pela companhia Ensemble - Sociedade de Actores, Porto.)

Em "Oleanna" de D. Mamet (também realizada pelo próprio autor para cinema em 1994 - ver aqui) encontramos uma dislexia paradoxal entre esses dois opostos. O opressor e o oprimido, ou antes, a interpretação dos factos por parte do que é subjugado face ao seu oposto que vive em função das suas necessidades, interesses e valores pessoais.
Um fair play onde as regras são exactamente as que cada um desejar não permitindo deste modo uma fácil dedução de injustiça, um jogo onde se pode apenas aferir a fácil construção e desconstrução das hierarquias sociais.
Os factos, ou apenas "alegações", são base para um confronto de palavras resultante de um não entendimento e uma revolta que funcionam como filtro para a consciência humana.

Num dispositivo cénico eficazmente simples, as palavras "caras" são contestadas e contrapostas por outras "correntes" com o mesmo significado e valor da realidade do discurso de um professor que vai perdendo poder em relação à aluna que conduz o seu ódio e confusão até uma total inverão dos papéis, onde a razão deixa de ser uma pauta de comportamento humano. O oportunismo e a esperteza são as armas desta disputa intelectual em nome dos valores e respeito; em nome e um grupo de pessoas ostracizado perante o poder instítuido e o à vontade inconsequente dessa mesma liberdade baseada no estatuto. Palavras que são factos distorcidos na óptica do "utilizador" do sistema.

Um lugar onde a acção decorre daquilo que se diz. Esse sítio é Oleanna.

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