segunda-feira, setembro 14, 2009

Idiotas...



Eimuntas Nekrošius esteve em cena no Teatro Nacional S. João com a peça "Os Idiotas" a partir do "O Idiota" de F. Dostoyevsky.

Nekrosius simboliza a tradição europeia teatral, um encenador que constrói um teatro visual e confronta a presença contínua de um teatro literário feito para ser ouvido. Para E. Nekrosius o teatro é o espaço de realização de trabalho onde a palavra é para ser vista, e é neste exemplar de um clássico da literatura russa é precisamente isso que acontece. Durante o longo desenvolvimento do espectáculo, o encenador pontua cada segundo com esta premissa onde o actor é objecto de movimento e palavra sobrepostos. Tudo aliado a uma estética plástica do teatro pobre tão aclamado desta vertente de encenadores pós-stanislavski e seguidores da tradição polaca onde se defende uma não-cinematização do teatro.
Como o próprio encenador afirma, para ele o teatro é uma resposta à rapidez do mundo em que vivemos, e não se deve seguir essa mesma fórmula para conseguir contar uma história. O relógio conta cinco horas e vinte de espectáculo para conseguir deslindar o percurso das personagens que habitam este universo, literário por parte do escritor e real por parte de Nekrosius.
«É preciso encontrar o pormenor e acentua-lo. Apanhar o tom, a nota certa. Ao recolher os pormenores curiosos, trabalha-se de uma forma simples. O realismo trabalhado com naturalidade e não confundido com naturalismo. O realismo acontece no momento, por exemplo, em que a personagem pisa excremento de cão. O teatro une realismo e criatividade». retirado aqui
Em "Os Idiotas" respira-se esse encontro entre realidade e criatividade, cada momento existe como resultado de um trabalhado árduo de pensamento e liberdade de imaginação, os movimentos complementam as palavras e as pausas estão preenchidas de conteúdo. Uma extrapolação teatral da própria realidade onde cada pensamento é transcrito e pode ser visto (e não adivinhado) directamente quando acontece. As personagens existem construídas como verdadeiras numa plasticidade que, à falta de rigor ou congruência, não seriam mais do que absurdas e inúteis.

Não há margem para definir o resultado de forma global e uniforme, acontece o Teatro numa das suas vertentes e a importância está em acontecer e não passar diluído entre pensamentos paralelos ou ilacções resultantes de uma multiplicidade de sentidos.
Quanto à possibilidade de uma versão "Director's Cut" seria definitivamente extenuante, e não sou apologista de um teatro lento em contraponto com a realidade, ainda assim foi uma experiência bastante enriquecedora e aliciante e sobre isso apenas tenho a dizer que foi uma óptima abertura de temporada para o Teatro Nacional S. João.

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