sexta-feira, janeiro 08, 2010

Adam & Narcissus



"E, enquanto me olhava no vidro, onde o cais iluminado se reflectia tão perfeitamente como num espelho, um riso louco começou a invadir-me, varrendo preocupações, medos, o cheque, e tudo o que me levara àquela festa, bem como tudo o que eu detestava; porque nessa vidraça, apesar da iluminação péssima e do Antoine, eu parecia ter vinte anos sim, eu tinha mesmo vinte anos.
Certamente que o metro não era o local onde imaginara brincar aos Narcisos. (...)

Talvez o meu cérebro, sob o efeito do mau espumante que os criados tinham servido dissimulando o rótulo com o guardanapo, tivesse entrado em delírio. No entanto, descobre-se melhor uma pessoa num olhar de relance do que numa apreciação demorada.
No primeiro caso penetrase-lhe no coração, enquanto que no segundo se fica pelas aparências."

in 'Ève' de Guy Hocquenghem

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