domingo, fevereiro 27, 2011

upper hand

Ia escrever algo sobre o facto de estarmos sempre a girar na mesma expressão “na mó de cima...”. Ia escrever em Inglês. Ia deduzir a partir das minhas experiências que é um ciclo contínuo, infinito e incontrolável, até ver/ouvir o texto/peça/espectáculo “SNAPSHOTS” de Carlos J. Pessoa pelo Teatro da Garagem  e então decidi escrever isto...
Em “SNAPSHOTS” fala-se mais uma vez do teatro. Das personagens. Da realidade que não existe e que é a todo custo imposta ao espectador... admoestada ao espectador a partir daquilo que é feito e dito pelos actores em cena. Pessoa, um autor dos seus erros, exerce a sua escrita sobre o trabalho de improvisação dos actores, das suas vivências, das suas experiências, da sua relação com o teatro. Com a arte. Com a sua maneira de estar perante a criação artística – que é, na minha opinião, algo indissolúvel na vida real de cada um, é uma metáfora eterna para capturar os momentos que melhor descrevem a humanidade, que melhor escrevem a humanidade, seja por aquilo que é dito, ou por aquilo que está para lá das palavras –.
O autor/encenador pede aos actores (intérpretes das suas próprias vidas) que independentemente da sua visão do Teatro, o vejam aqui como algo que entra nas suas vidas de forma “desejavelmente feliz”, que os complete, que os questione, mas que não o matem antes de o experimentar, que o experimentem de forma a poder exorcizá-lo, ainda que da forma mais excêntrica e falsa possível, ainda que da forma mais Indiferente possível (como o faz Dinis Machado, ele próprio como representação de algo, ao justificar a Arte à luz de um isqueiro num blackout de energia que contrapõe as "brancas" comuns, as "brancas" que fazem desta arte visual – onde a palavra se desenha – algo que entra em metamorfoses e “dissectrizes” que o conduzem a uma história cheia de justificações académicas, quase médicas, definitivamente cientificas que estudam na Arte uma forma de classificação humana).
Não somos todos nós personagens que andamos perdidas a querer guardar eternamente momentos que são importantes para nós. Cada um de nós uma pequena e singular história de amor solitária que se inscreve na própria maneira de ser, mais tarde descrita e escrita em histórias, em romances, em adaptações de vida real em ficção para representar, novamente, a vida real.
Somos o próprio Morfeu, somos o próprio Goethe, somos a história de vida de todos os autores clássicos que em bláblá’s mergulhados em pós-significância são o espelho da nossa sociedade, são uma multiplicação de todos nós, desde o mais intelectual às tribos desconhecidas que agem com os nossos impulsos, que sofrem os nossos medos, que perguntam de forma simples as mesmas perguntas retóricas e indefinidas que nós colocamos perante um crânio despido de Schiller em dialectos que se assemelham a um alemão ininteligível (dependendo da intenção...) e que, bem fundo, são os desafios que nos colocamos numa maneira muito pessoal de sermos o próximo Ultimate Survivor para nós próprios.
Numa indiferença muito própria, “na mó de cima” não significa absolutamente nada porque, ou já lá estivemos, ou vamos estar lá de novo e isso não retira qualquer importância ao resto de tempo que passamos com “ausência de doença”, estejamos atentos.

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